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Broncoscopia no grande queimado: Análise retrospectiva de 11 casos

Autores: Lucas VS, De Marco MA, Melo RN, Rabello E

Serviço de Pneumologia do Hospital de Força Aérea do Galeão (HFAG) - RJ




Introdução

Com a disseminação do uso de materiais sintéticos cuja combustão produz gases nocivos para a mucosa respiratória, vem aumentando a incidência de lesões de vias aéreas nos pacientes queimados . Essas lesões, juntamente com infecção, constituem-se nas principais causas de morte nesses individuos, sendo citadas taxas de 18,5% (1).

O trauma pulmonar pode evoluir para a síndrome de angústia respiratória do adulto (SARA) em poucos dias e, nesse aspecto, o RX de tórax e a gasometria arterial iniciais têm pouco valor preditivo (2, 3).

Os dados de literatura apontam para a Broncoscopia (BCP) precoce como método útil no diagnóstico da lesão brônquica e na previsão de SARA nos indivíduos com suspeita de queimadura por inalação (2, 4).

Esse estudo mostra as análises retrospectivas de BCP realizadas em 11 pacientes com suspeita de queimadura de vias aéreas objetivando estabelacer correlações entre os achados endoscópicos e a evolução para insuficiência respiratória aguda (IRA), que é o principal componente diagnóstico da SARA.

Material e Métodos

População Estudada


Todos os casos sofreram queimadura de face. Em 10, incluindo o de causa elétrica, por exposição direta à chama e em 1 por líquido quente. Queimadura de vibriças foi observado em 3 pacientes, não observado em 2 e não relatado em 6.

Resultados

Tabela II - distribuição dos achados broncoscópicos conforme tipo de queimadura e localização da lesão.


No caso de queimadura elétrica a BCP foi normal pela própria natureza do agente, e no de líquido quente ocorreu hiperemia até brônquios lobares por provável aspiração.

Nos demais casos, todos por chama, as lesões mais observadas foram secreção, hiperemia e edema, sendo as duas últimas num maior número de pacientes. Das 4 observações de secreção, 2 foram sangue, atribuído a trauma torácico e não a lesão por inalação.

Embora as lesões se distribuissem em frequência de observação quase uniforme do laringe aos brônquios segmentares, na maioria dos pacientes localizaram-se no laringe (82%).

Tabela III- Correlação Entre Lesões Endoscópicas e Evolução para IRA

Achado broncoscópico Número IRA
BCP normal 2 1
Alterações atribuídas a trauma torácico 2 0
Lesões compatíveis com queimadura 7 3
Total 11 4

3/7 (43%) dos pacientes com achado endoscópico compatível com queimadura por inalação evoluíram para IRA e desses, 3 morreram (mortalidade global 3/11 = 27%

Tabela IV- Correlação Entre a Localização da Lesão e Evolução para IRA

Localização número IRA
Supra-glótica 4 1
Laringe 12 3
Traquéia 12 3
Brônquios principais 13 2
Brônquios lobares 13 2
Brônquios segmentares 11 2

Não foi observada relação entre localização da lesão e evolução para IRA.

Discussão

A broncoscopia tem demonstrado ser um método acurado para o diagnóstico de queimadura por inalação com sensibilidade de 79% e especificidade de 94% quando associada a dados histológicos (2). Há estudos correlacionando os achados broncoscópicos com o tipo de queimadura, sendo as lesões profundas e distais na árvore brônquica mais frequentes em inalação de vapor quente do que de chama (5, 6). Na série apresentada, 9 dos 11 pacientes tiveram exposição à chama, e em concordância com a literatura, as lesões superficiais foram as mais comuns e o local mais acometido foi o laringe em relação a segmentos distais das vias respiratórias.

As lesões brônquicas por inalação têm sido relacionadas ao desenvolvimento de SARA nos indivíduos queimados em proporção de até 52% (4). Embora o número de casos ora apresentados seja pequeno (n=7), o percentual dos que evoluiram para IRA é próximo (43%).

Não foi observada qualquer relação entre o local do achado endoscópico e a evolução para IRA sugerindo ter a lesão brônquica, nesse aspecto, um valor prognóstico absoluto para o aparecimento da doença respiratória.

Conclusões

1- A BCP mostrou-se útil na avaliação inicial do paciente com suspeita de queimadura de vias aéreas.
2- 43% dos pacientes estudados com lesão brônquica compatível com queimadura por inalação evoluiram para IRA.
3- Não foi observada relação entre o local da lesão endoscópica e o desenvolvimento de IRA.

Referências Bibliográficas

1- Lee ST, Leung CM. Epidemiology and management of respiratory burnsin National Burns Centre, Singapore. Ann Acad Med Singapore 21 (5): 612-8, 1992.

2- Masanès MJ, et al. Fiberoptic bronchoscopy for the early diagnosis of subglottal inhalation injury: comparative value in the assessment of prognosis. J. Trauma 36 (1): 59-67, 1994.

3- Robinson TJ et al. Alterations in pulmonary ventilation and blood gases in acute burns. Br J Plast. Surg 25: 250-60, 1972.

4- Màsanes MJ, et al. Using bronchoscopy and biopsy to diagnose early inhalation injury. Macroscopic and histologic findings. Chest 107: 1365-9, 1995.

5- Naito J, et al. Bronchofiberscopic findings in airway burn. 5th World Congress for bronchology, Rio de Janeiro, Brazil, 1986.

6- Cahalene M, Demling, RH. Early respiratory abnormalitiesfrom smoke inhalation. JAMA 251: 771-3, 1984.


Qualquer dúvida ou sugestão envie um e-mail para Carlos Eduardo Reis

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