![]() |
Perfil da Unidade de Trauma do Hospital de Pronto Socorro de Porto AlegreAutores: Hamilton Petry de Souza MD, Luís Fernando Strauch de Mello MD, Luciano Silveira Eifler MDInstituição: Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre |
|
Sinopse Com o objetivo de apresentar os dados epidemiológicos dos pacientes internados na UTI de trauma do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, realizou-se um estudo prospectivo por um período de 80 dias. Foram analisados 100 pacientes; destes, 72% eram do sexo masculino. A idade média foi 29,5 anos e o mecanismo do trauma, contuso em 75% dos casos, ocasionados principalmente por atropelamentos, seguidos por acidentes automobilísticos e queda de altura. O traumatismo crânio-encefálico e suporte ventilatório/hemodinâmico foram as principais indicações de cuidados intensivos. O TCE e choque hemorrágico foram a causa da morte na primeira semana de internação. A falência de múltiplos órgãos foi encontrada nos pacientes com óbito, após 7 dias de internação. A taxa global de mortalidade foi de 31%. |
|
Abstract With the objective to present an epidemiological data of patients admitted at the Trauma Intensive Care Unit of Porto Alegre Pronto Socorro Hospital, a prospective study was done in a period of 80 days. A hundred patients were analized, 72% of them were males. The average age was 29,5 , and blunt trauma was trauma mechanism in 75% of cases, caused mainly for vehicle-pedestrian accidents, followed by motor vehicle accidents and falls. The cranio-encefalic trauma and the ventilatory-hemodinamic assistance were the main cause of inensive care unit admissions. The cranio-encefalic trauma and hemorragic shock were the cause of death in the first week of admission. The multiple organ failure was found in patients dead after one week of admission. The overall mortality was 31%. |
Levantamentos estatísticos referentes ao trauma geralmente revelam uma realidade alarmante. É a principal causa de morte entre 1 e 44 anos de idade
(1). Consequentemente, o número de anos potencialmente perdidos é maior do que a soma resultante de doenças cardiovasculares e neoplásicas(2).Classicamente, acredita-se que a mortalidade em trauma tenha uma distribuição tri-modal em relação ao período de tempo: metade ocorre imediatamente ou poucos minutos após o evento traumático, trinta por cento ocorre nas primeiras duas a três horas seguintes e o restante, vinte por cento, no período subsequente. Os pacientes vítimas de trauma que internam em Unidade de Tratamento Intensivo são, na verdade, sobreviventes de uma doença multissistêmica que acomete indivíduos previamente hígidos e que, quando determina a morte, o faz, na maioria das vezes, antes do paciente ser internado. Sendo assim, é na Unidade de Tratamento Intensivo que ocorrem praticamente todas as mortes e a maioria das complicações graves dos pacientes que sobrevivem as primeiras horas pós-trauma.
O objetivo do trabalho foi determinar as caracteristicas básicas dos pacientes que internam na UTI de trauma. Utilizou-se, para tal, a UTI de Trauma do HPS, que caracteriza-se pelo atendimento exclusivo de traumatizados graves, onde foram coletados, prospectivamente, os seguintes dados:
Por um período de 80 dias (1 de julho a 20 de setembro de 1995), 100 pacientes vítimas de trauma internaram na UTI do HPS. Setenta e dois eram do sexo masculino (Gráfico 1). A idade média foi de 29,5 anos. Setenta e cinco eram vítimas de traumatismo contuso, 18 de penetrante e 7 de grandes queimaduras, as quais foram excluídas da presente análise (Gráfico 2).
Dos pacientes que sofreram traumatismo contuso, 47% corresponderam a atropelamentos, sendo o restante causados por acidentes com veículos automotores, queda de altura e acidentes envolvendo motocicletas, conforme Tabela 1.
O tempo de internação foi inferior a 7 dias em 71% dos casos. O crânio foi a região do corpo mais frequentemente atingida (58%), seguida pelo tórax (34%), membros (31%) e abdômen (9%) conforme Gráfico 3. A maioria dos pacientes teve apenas uma região do corpo traumatizada (58%).
A principal indicação de internação em UTI foi necessidade de cuidados do traumatismo crânio-encefálico-(TCE) (54%), seguida por necessidade de suporte hemodinâmico e/ou respiratório (22%). Das cirurgias realizadas, a drenagem pleural foi a mais frequente (24), seguida por craniotomias (20). Dos cem pacientes que internaram, 60 receberam alta da UTI para as enfermarias do hospital, 31 morreram e 9 foram transferidos para UTIs de outros hospitais (Gráfico 4) .
Excluindo-se aqueles que foram transferidos e os grandes queimados, a sobrevida foi de 69%. Sessenta e cinco por cento dos óbitos ocorreu na primeira semana de internação e todos em consequência de TCE ou choque hemorrágico. Falência de Múltiplos Órgãos ocorreu em metade dos óbitos com mais de 7 dias de internação.
Da presente amostra depreende-se o fato de que o traumatismo contuso em geral é o mecanismo de lesão mais frequente. Os atropelamentos, em particular, foram a principal causa de trauma, correspondendo a praticamente o dobro dos acidentes automobilísticos, se estes forem considerados em separado.
O crânio foi a região do corpo mais frequentemente lesada. Estudos americanos(3) calculam em 100.000 o numero de mortos por ano por TCE nos EUA. Conforme a intensidade do trauma, isto ocorre em 66 a 100% das vezes se consideradas as moderadas e graves, respectivamente(4).
O traumatismo torácico, presente em 34% da amostra, representa a segunda causa de mortalidade em trauma (5). Em termos gerais, estima-se que 25% das mortes por trauma sao consequentes ao traumatismo torácico(6).
O traumatimo abdominal, apesar de ter ocorrido em apenas 9% da amostra, reveste-se de importancia pois e uma das principais causas de morte consideradas preveníveis(9-10).
Apesar dos avanços da Terapia Intensiva, a mortalidade de 31% observada na presente amostra é alta. Entretanto, é provável que ela represente a crescente gravidade que os traumatismos em geral tem determinado devido ao crescimento da violência urbana. Além disso, é possível que a crescente aplicação de estratégias bem definidas de atendimento inicial ao traumatizado, como a do Advanced Trauma Life Support -ATLS-, esteja permitindo um maior índice de sobrevida inicial, aumentando assim a gravidade dos pacientes que internam nas UTIs.
Observou-se que o TCE e a hemorragia foram as principais causas de mortalidade precoce enquanto a sepse e a FMO foram as principais causas de mortalidade tardia, de acordo com a literatura (7-8). Medidas para diminuir a mortalidade, tanto a precoce quanto a tardia, consistem, basicamente, na prevenção de complicações graves através de um eficiente atendimento inicial realizado no sentido de restaurar a perfusão tecidual o mais precocemente possível.

Gráfico 1: Distribuição Por Sexo

Gráfico 2: Mecanismo da Lesão

Gráfico 3: Topografia da Lesão

GRÁFICO 4: Destino
|
CAUSA DO ACIDENTE |
n \ % |
|
ATROPELAMENTOS |
35 (47%) |
|
ACIDENTES AUTOMOBILÍSTICOS |
16 (21%) |
|
QUEDAS DE ALTURA |
15 (20%) |
|
ACIDENTES DE MOTO |
6 (8%) |
|
OUTROS |
3 (4%) |
TABELA 1: Distribuição dos Acidentes
1. National Center for Health Statistics, US Department of Health and Human Services, Public Health Service: Monthy Vital Statistics Report, Advance Report of Final Mortality Statistics, 1992.43:1-76.
2.Update: years of potential life lost before age 65 - United States, 1988 and 1989. MMWR 40:60,1990
3. Kraus JF: Epidemiology of head injury. Cooper PR (ed): Head Injury, 2nd Ed. Baltimore, Williams & Wilkins, 1987,
4.Kalsbeek WD et al. The National Head and Spinal Cord Injury Survey: Major findings. J Neurosurg 53 (suppl. 5): 19,1980.
5.LoCicero J, Mattox KL: Epidemiology of chest trauma. Surg Clin North Am 69:15,1989.
6.Tonge JI, O’Reilly MJJ, Davidson A, et al: Traffic crash fatalities. Injury patterns and other factors. Med Sci Law 17:9;1977
7.Trunkey DD, Blaidell FW: Epidemiology of trauma. In: Wilmore DW, Brennan MF, Harken AH, et al (eds). Care of the Surgical Patient. New York, Scientific American, 1988.
8. Faist E, Baue AE, Dittmer H, Heberer G.: Multiple Organ Failure in Politrauma Patients. J Trauma 23:775, 1983.
9.Neuman TS et al: An Autopsy Study of Traumatic Deaths. Am J Surg, 144:722, 1982.
10.Trunkey DD, Cales RH: Preventable Trauma Deaths. JAMA, 254:1059, 1985.
Luciano Silveira Eifler -
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
Site na Internet
Qualquer dúvida ou sugestão envie um e-mail para Luciano Silveira Eifler
Voltar para Artigos Especiais
Voltar para Homepage do Medstudents