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Criptococose Cutânea Primária Mimetizando Carcinoma Basocelular - Relato de Caso

Autores: Jorge Pedro Mentz, Rubens Rodriguez, Gustavo Cabrera, Liége Mari Mentz, Maurício Mentz, Rachele Zanchet Grazziotin.
Trabalho realizado no Centro de Cirurgia Geral e Videolaparoscópica do Hospital da Cidade de Passo Fundo, RS, e no Instituto de Patologia de Passo Fundo, RS

Resumo

A Criptococose cutânea primária em pacientes sem comprometimento imunológico é uma entidade clínica muito rara e, quando ocorre, sua apresentação é multiforme, dificultando o diagnóstico.
Relata-se o caso de um paciente masculino, branco, 69 anos, que apresentava lesão plana, ulcerada, pardo-brancacenta em região peri-orbicular direita. Com a suspeita de carcinoma basocelular, realizou-se uma biópsia excisional a qual firmou o diagnóstico de Criptococose Cutânea tipo Granulomatosa. Não haviam evidências de doença sistêmica.
A Criptococose é causada pelo Cryptococcus sp.. As manifestações cutâneas ocorrem em 10 a 15 % dos casos e, na maioria das vezes, precede o surgimento de doença sistêmica.
Os fatores predisponentes são doenças sistêmicas crônicas, SIDA, uso de corticóides ou drogas imunossupressoras. Apresenta-se na forma de abscessos ou placas ulceradas com margens elevadas e lisas, semelhantes ao carcinoma basocelular. O diagnóstico é realizado pela combinação de um alto grau de suspeição, da apresentação clínica e do estudo anatomopatológico.

Abstract

Primary cutaneous cryptococcosis in patient without immunologic implications is a very rare clinical entity. When it appears, your presentation is multiform, making the diagnosis difficult.
The authors report a case of a 69-year-old, white male patient, with a plane, ulcerated, and whitish lesion at right periorbital region. With the suspicion of basal cell carcinoma, was performed an excision biopsy which ratified the diagnosis of cutaneous cryptococcosis. There were no evidences of systemic disease.
The cutaneous manifestations occur in 10 to 15% of cases and, in most cases, precede the appearance of systemic disease.
The predisponent factors are chronic systemic disease, AIDS, corticoid use or immunosuppressive drugs. The lesions are presented on the form of abscess or ulcerated plaque, with increased and smooth margines. The diagnosis is performed by the agreement of a high degree of suspicion, the clinical presentation and anatomicopathological study.

Introdução

A Criptococose é uma doença rara causada pelo Cryptococcus neoformans, um levedo arredondado que mede entre 4 e 10 mm. É transmitida através da inalação das formas infecciosas do Cryptococcus, comprometendo inicialmente o pulmão na maioria das vezes. Pode disseminar-se para outros órgãos, mesmo se a infecção primária for leve ou assintomática (1).

É excepcionalmente rara em pacientes com imunidade normal e geralmente ocorre em pacientes com imunodeficiência (5). A Criptococose sistêmica é a infecção fúngica de comprometimento sistêmico mais freqüente em pacientes portadores da Síndrome de Imunodeficiência Humana (SIDA), ocorrendo em 6 a 13 % desses pacientes (7). É a infecção oportunista inicial em aproximadamente metade de todos os pacientes com SIDA.

A Criptococose cutânea primária é infreqüente e, mesmo nos casos documentados, é difícil de excluir a presença de doença sistêmica. As manifestações cutâneas ocorrem em 10 a 15 % dos casos e, na maioria das vezes, precede o surgimento de doença sistêmica (3).

Relato do Caso

Paciente masculino, branco, com 69 anos procurou atendimento médico por apresentar uma lesão plana, ulcerada, de coloração pardo-brancacenta em região peri-orbicular direita de longa data. Com a suspeita clínica de carcinoma basocelular, realizou-se uma biópsia excisional com margens cirúrgicas amplas. A peça foi enviada para estudo anatomopatológico, o qual, através das colorações de Alcian-blue (Foto I.), de Fontana-masson (Foto II.), de Mucicarmin (Foto III.) e de Giensa (Foto IV.), fez o diagnóstico de Criptococose cutânea na sua forma granulomatosa. No passado, o paciente havia apresentado um carcinoma epidermóide de comissura labial direita, tratado cirurgicamente, sem evidências clínicas de recidiva tumoral no momento. Com o diagnóstico firmado, investigou-se o paciente à procura de doença sistêmica, não tendo sido encontrada nenhuma evidência clínica de comprometimento sistêmico. Durante a investigação, descartou-se a presença de fatores predisponentes da doença, tais como imunossupressão e o uso de corticóide. O paciente permanece em acompanhamento ambulatorial, sem evidências clínicas de recidiva local ou desenvolvimento de doença sistêmica.

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Foto 1. Coloração de Alcian-blue
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Foto 2. Coloração de Fontana-masson
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Foto 3. Coloração de Mucicarmin
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Foto 4. Coloração de Giensa


Comentários e Conclusões

Das 19 espécies de Cryptococcus existentes, apenas a espécie neoformans é de importância patológica para os seres humanos (2). Apresenta 2 variedades, a neoformans e a gattii. São isolados em frutas secas e em vários cereais. Seus hospedeiros são animais de sangue quente que se alimentam de cereais contaminados, principalmente os pombos (2), sendo encontrados nas fezes desses animais. O sorotipo A é responsável por cerca de 99 % das infecções diagnosticadas(4).

O desenvolvimento de Criptococose, tanto cutânea quanto sistêmica, está associada à presença de comprometimento da imunidade do paciente. É excepcionalmente raro a sua ocorrência em pacientes cuja imunidade não se encontra comprometida. As doenças crônicas graves, como a Doença de Hodgkin, Leucemia, Diabete Melito e colagenoses, a SIDA, o uso de crônico de corticóides ou de outras drogas imunossupressoras e a imunodepressão são fatores predisponentes (2).

A Criptococose cutânea pode se apresentar de diversas formas, incluindo pápulas, pústulas, abscessos, nódulos, placas ulceradas e celulites (5). Habitualmente ocorre na forma de abscessos ou de placas ulceradas. O comprometimento da mucosa, tanto oral quanto retal, é infreqüente. As úlceras possuem bordos elevados e lisos, semelhantes ao carcinoma basocelular. Quando se apresenta na forma de abscessos, esses são dolorosos, porém sem sinais inflamatórios locais. Geralmente está associada à doença sistêmica. A Criptococose cutânea primária é excepcionalmente rara e, mesmo em casos documentados, é difícil se excluir definitivamente a presença de comprometimento sistêmico (5). Ela pode preceder o desenvolvimento da forma sistêmica.

O pulmão é a porta de entrada na sua forma sistêmica, disseminando-se sistemicamente pela via hematogênica. Cerca de 10 a 15% dos casos sistêmicos apresentam comprometimento cutâneo concomitantemente. As mucosas são comprometidas em apenas 3 % dos casos. Na Criptococose cutânea primária, resulta da inalação do Cryptococcus sem o desenvolvimento de lesão pulmonar ou, menos freqüentemente, da inoculação local do Cryptococcus (2). O diagnóstico é realizado através da combinação de um alto grau de suspeição associada à apresentação clínica complementada pelo estudo anatomopatológico. As colorações Alcian-blue, Fontana-masson, Giemsa e Mucicarmin são as mais utilizadas para o diagnóstico histológico, permitindo a visualização do Cryptococcus, assim como o diagnóstico diferencial com outras lesões (6).

A infecção cutânea pelo Cryptococcus deve ser considerada no diagnóstico diferencial de lesões cutâneas atípicas ou refratárias aos tratamentos convencionais, principalmente, porém não exclusivamente, em pacientes imunocomprometidos. A histoplasmose e a blastomicose podem apresentar lesões semelhantes e, portanto, também devem ser consideradas.

O tratamento é fundamentalmente clínico. A classe, a dose e a duração do tratamento com anti-fúngicos permanece controversa, devendo ser iniciada precocemente e mantida por longo prazo. Os esquemas terapêuticos mais utilizados atualmente incluem o fluconazol, o Cetoconazol, o Itraconazol e a Anfotericina B. O paciente deve permanecer sob acompanhamento ambulatorial por longo tempo, tendo em vista que as lesões podem retornar após o término do tratamento.

Referências

1. Baker, DJ.; Reboli, AC. Cutaneous Cryptococcosis. NEJM 1997, 336(14):998.

2. Bohne, T.; Sander, A.; Pfister-Wartha, A.; Schöpf, E. Primary cutaneous cryptococcosis following trauma of the right forearm. Mycosis 1996;39:457-459.

3. Cotran, Kumar & Robbins: Robbins Pathologic Basis of Disease. 5th ed. USA:Philadelphia, 1994.

4. Fauci, Braunwald, Isselbacher, et al.: Harrison's Principles of Internal Medicine. 14th ed. The McGraw-Hill Companies, 1998.

5. Goonetilleke, AKE.; Krause, K.; et al. Primary cutaneous crytococcosis in na immunocompromized pigeon keeper. British Journal of Dermatology 1995; 133:650-652.

6. Martinelli, C.; Comin, CE.; Ambu, S.; Bartolozzi, D.; Leoncini, F. Solitary cutaneous crytococcosis resemblimg chickenpox: a case report. AIDS 1997; 11(2):260-261.

7. Murakawa, GJ; Kerschmann, R.; Berger, T. Cutaneous cryptococcus infection and AIDS. Arch Dermatol 1996;132:545-548.




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