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Pneumonia Comunitária em Adultos (PCA)

Autor: Rafael Aron Abitbol, MD

- Professor Assistente de Imunologia da USS

Comentários: Célio de Barros Barbosa, MD
- Ex-residente do Instituto de Tisiologia e Pneumologia da UFRJ
- Médico do Serviço de Pneumologia do HFAG

Fonte:
1) Guidelines for the Initial Management of Adults with Community-acquired Pneumonia: Diagnosis, Assessement of Severity, and Initial Antimicrobial Therapy"- American Thoracic Society (ATS) - 1993
2) I Consenso Brasileiro sobre Pneumonias"- Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tissiologia - 1997




Definição

A pneumonia adquirida na comunidade (PCA) é aquela que acomete o indivíduo fora do ambiente hospitalar ou nas primeiras 48h após a internação do paciente.

Aspectos Epidemilógicos

No Brasil, em função das escassas informações epidemiológicas, torna-se necessário desenvolver estudos clínico-epidemiológicos multicêntricos, com casos oriundos da comunidade, identificados por sinais clínicos e radiológicos e fatores de comorbidade, com espécimes colhidos com procedimentos propedêuticos não invasivos e invasivos, para diagnóstico etiológico e teste de sensibilidade aos principais antimicrobianos utilizados.

Aspectos Etiológicos

Apesar do diagnóstico etiológico precoce ser essencial no manuseio da PCA, a identificação do patógeno responsável ocorre em apenas 50% dos pacientes, mesmo quando testes intensivos para o diagnóstico são realizados.Existem evidências de que a freqüência do pneumococo tenha sido superestimada no passado e a dos demais germes subdiagnosticada. A freqüência de germes ditos "atípicos", como o Mycoplasma pneumoniae, Legionella pneumophila e Chlamidia pneumoniae, têm sua maior importância entre adolescentes e adultos jovens, sem fatores de comorbidade, e entre pacientes idosos expostos à contaminação. No Brasil, recentemente, o diagnóstico destas pneumonias tem sido mais freqüente: Corrêa et al., no Rio de Janeiro, investigou a primeira microepidemia de pneumonia por Legionella pneumophila em1993 e estudos de Rocha et al ., mostraram os resultados constantes na tabela abaixo.

Etiologia das pneumonias adquiridas na comunidade tratadas domiciliarmente

Pneumonia Número % do total
Não-atípica 35 50
Atípica 34 50
  • Chlamidia sp
  • 11 16
  • M. pneumoniae
  • 7 10
  • Influenza A
  • 4 6
  • Legionella
  • 4 6
  • Influenza B
  • 1 1,5
  • Chlamidia sp + M. pneumoniae
  • 5 7,3
  • Chlamidia sp + Influenza B
  • 1 1,5
  • M. pneumoniae + Influenza A
  • 1 1,5
    Tese da Dra Rosali Rocha, apresentada no curso de
    Pós-Graduação em Pneumologia da Unifesp, 1998

    Portanto, devidos à estas limitações, uma terapia empírica inicial é importante e usualmente necessária. Para isso foram definidas 4 categorias de pc com base em informações colhidas no momento inicial da evolução do paciente:
  • Necessidade de internação hospitalar;
  • Gravidade da doença;
  • Presença de dçs coexistentes;
  • Idade do paciente

    Critérios para Internação

    Existe uma série de critérios reconhecidos como fatores de risco que aumentam tanto o risco de morte quanto de um curso complicado. Veja nosso programa de Avaliacão do Risco de Pacientes com Pneumonia Comunitária
    Dentre estes fatores de risco podemos citar:

    a) Idade > 65 anos;

    b) Presença de dçs coexistentes e/ou outros achados:
    -- Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), încluindo dçs estruturais crônicas do pulmão (bronquiectasias, fibrose cística, etc);
  • Diabetes Mellitus (DM);
  • Insuf. Renal Crônica;
  • Insuf. Cardíaca Congestiva (ICC);
  • Dç Hepática Crônica;
  • Hospitalização prévia dentro de um ano do início da PCA;
  • Estado mental alterado;
  • Desnutrição ou alcoolismo.

    c) Fatores clínicos preditores de morbi-mortalidade:
  • > 30 irm
  • PA < 90 x 60 mmHg
  • Tax > 38,5'C
  • Presença de dç extra pulmonar (meningite, artrite séptica, etc)
  • Queda do nível de consciência

    d) Fatores laboratoriais:
  • Eritropenia (< 4000000 hemácias / ml) ou eritrocitose (> 30000000 hem / ml) ou leucopenia (<10000 leucócitos / ml) ;
  • Pressão arterial de oxigênio (PaO²) <60mmHg ou PaCO² >50mmHg (em ar ambiente);
  • Necessidade de ventilação mecânica;
  • Função renal anormal, manifestada por creatinina >1,2 mg/dl ou uréia nitrogenada >20mg/dl;
  • Ht < 30% ou Hb < 9mg/dl;
  • Outras evidências de sepse ou disfunção orgânica como: manifestações de acidose metabólica, aumento do TAP e PTT, diminuição das plaquetas, ou a presença de produtos de fibrina.

    e) Achados radiológicos desfavoráveis como envolvimento de + de um lobo, presença de cavidades, presença de derrame pleural, etc.

    f) Considerações sociais também devem influenciar na decisão da internação.

    ** A maioria das PCA severas envolvem um espectro distinto de agentes etiológicos: 1- S.pneumoniae e L. pneumophila são os m.o. + comuns; 2- Bacilos G neg causam PCA somente em pc com dç coexistente como: DPOC, DM, alcoolismo, etc. 3- P. aeruginosa raramente está presente (exceto em pc com bronquiectasias)

    Procedimentos Diagnósticos na PCA

  • Raio-x de tórax PA e perfil

  • Coloração de Gram para a expectoração + cultura
    O critério comumente usado para a amostra é controverso e preconiza que uma boa amostra de escaro contenha mais do que 25 neutrófilos por campo ou menos de 5 células escamosas por campo.
    A cultura e o exame direto da secreção podem ser úteis na suspeita de Mycoplasma sp, Legionella sp, e fungos endêmicos. Técnicas mais invasivas como aspiração trans-traqueal, broncoscopia, lavado broncoalveolar, e aspiração direta dos pulmões devem ser restritas para pacientes mais graves.

  • Hemoculturas (2 amostras)

  • Toracocentese (derrame pleural) incluir :
    - contagem + diferencial de cels sangüineas
    - contagem de proteínas
    - glicose, LDH, Ph, BAAR
    - Coloração para Gram, culturas.

  • Rotina laboratorial (hemograma completo, bioquímica, hepatograma)

  • Gasometria arterial

    Tratamento (exclui pacientes com risco para HIV)

    O Consenso Brasileiro optou por adotar como guia para a terapêutica das PCA, a estratificação sugerida pelos consensos internacionais (como o canadense, o britânico, e o da associação torácica norte americana-ATS), pela consistência científica que apresentam, classificando as pneumonias de acordo com a gravidade, faixa etária e a presença ou não de comorbidade. Esta estratificação guarda relação etiológica, conforme trabalhos internacionais e nacionais e de acordo com experiências pessoais discutidas durante o consenso.

    Classe I

    Pacientes menores do que 60 anos os quais não apresentam evidência de comorbidade e que podem ser tratados ambulatorialmente

    Microorganismo Envolvido Terapia Antibiótica 1
  • S. pneumoniae
  • M. pneumoniae
  • Viroses respiratórias
  • C. pneumoniae
  • H. influenzae
  • Macrolídeos2 ou Tetraciclina3
    1 - Usualmente tratados em regime ambulatorial com amoxilina ou macrolídeo por 7 dias
    2 - Novos macrolídeos como Claritromicina ou Azitromicina podem ser considerados nos casos de
    pacientes com intolerância à eritromicina e em fumantes (H.influenzae).
    3 - Muitas espécies de S.pneumoniae são resistentes à tetraciclina, sendo reservados para pacientes
    alérgicos ou intolerantes à macrolídeos

    Mortalidade: < 5%

    Classe II

    Pacientes com comorbidade e/ou menores do que 60 anos que podem ser tratados ambulatorialmente

    Microorganismo Envolvido Terapia Antibiótica
  • S. pneumoniae
  • Viroses respiratórias
  • H. influenzae
  • Bacilo Gram negativos aeróbicos
  • S. aureus
  • Variados (M.catarralis, Legionella sp,
  • M.tuberculosis, fungos (- comuns)
  • Cefalosporina de 2ª geração
    ou
    TMP + SMX
    ou
    Beta-lactâmico / inbidor B-lactamase
    + ou -
    Macrolídeos1
    1- Se houver confirmação de infecção por Legionella.

    Mortalidade < 5% (porém 20% dos pacientes tratados ambulatorialmente necessitaram de internação hospitalar). Diferenças importantes entre patógenos encontrados no grupo I e II (bacilos gram neg aeróbicos, M.catarrallis, M.tuberculosis) que eram devidos à presença de doença concomitante, incluindo DPOC.

    Classe III

    Pacientes que requerem internação hospitalar em enfermaria

    Microorganismo Envolvido Terapia Antibiótica
  • S. pneumoniae
  • H. influenzae
  • Polimicrobiota (incluindo anaeróbios)
  • Bacilo G neg aeróbio
  • Legionella sp
  • S. aureus
  • C.pneumoniae
  • Viroses respiratórias
  • Variados (menos comuns)
  • Cefalosporina de 2ª ou 3ª geração
    ou
    beta-lactâmico / inibidor beta-lactamase
    + ou -
    Macrolídeos1
    1 - A rifampicina pode ser associada no caso de legionelose.
    Mortalidade de 5 a 25% (a maioria dos óbitos ocorreram nos 7 primeiros dias)

    Esse grupo difere dos outros citados pela presença de uma pneumonia não tão severa, em pc com maior número de infecções polimicrobianas, que reflete a coexistência de processos que levaram a broncoaspiração de secreções orofaríngeas colonizadas, e mais pc com Legionellos (doença mais grave).

    Classe IV

    Pacientes que requerem internação na UTI

    Microorganismo Envolvido Terapia Antibiótica
  • S. pneumoniae
  • H. influenzae
  • Polimicrobiota (incluindo anaeróbios)
  • Bacilo G neg aeróbio
  • Legionella sp
  • S. aureus
  • C.pneumoniae
  • Viroses respiratórias
  • Variados (menos comuns)
  • Macrolídeo
    +
  • Cefalosporina de 3ª geração (com atividade anti
  • pseudomonas)1
    ou
  • Imipenem/Cilastatin
    ou
  • Ciprofloxacin
  • 1 - Devido à uma mortalidade aumentada associada com Pseudomonas, um aminoglicosídeo
    pode ser associado (à princípio nos primeiros dias de tratamento)
    à uma cefalosporina de 3ª geração, imipenem ou ciprofloxacin.

    Mortalidade em torno de 50% - Neste estudo, 1/3 à 1/2 dos pc não apresentaram etiologia definida.

    Considerações especiais

    Pneumonia no idoso: No quadro clínico chamam a atenção algumas peculiaridades quanto a apresentação clínica inicial; os sintomas clássicos como febre, tosse, dor torácica, dispnéia, presença de ruídos adventícios, podem estar ausentes em até 30% dos casos. A apresentação atípica pode ocorrer, como queda do nível de consciência, agitação, apatia, perda do apetite, queda da própria altura ou ainda descompensação da doença de base.

    Pneumonias de resolução lenta: Uma vez adotada a conduta acima mencionada de reavaliação em 72h e feitos ajustes necessários, e não se obtendo uma evolução satisfatória, o próprio diagnóstico de pneumonia deve ser reavaliado, além de considerar a possibilidade de outras doenças infecciosas não usuais ou não suspeitadas até então (como Mycobactéria, Nocardia, Actinomyces, fungos endêmicos ou não endêmicos (Paracoccidiodis brasiliensis, Criptococcus).

    Profilaxia: Grupos específicos com comorbidade e idosos são clientela para programas de vacinação. Hoje dispomos, no mercado, de produtos que conferem proteção relativa; trata-se da vacina antivírus da gripe com 2 sorotipos, que deve ser ministrada anualmente no outono. A vacina antipneumocócica, com 23 sorotipos, também deve ser utilizada neste grupo de pacientes, a cada 5 anos.



    Qualquer dúvida ou sugestão envie um e-mail para Rafael Aron Abtibol

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